outubro 02, 2003

EU NÃO QUERIA FALAR DE FUTEBOL, I. O Avatares de Desejo escreveu sobre a derrota do FC Porto com um tom sereno. Não há outro: «O luto de uma derrota do Porto não dura dois dias, mas apenas o tempo que decorre entre o apito derradeiro e essa ovação final de onde emana já um estranho sabor a vitória.»

Eu confesso: de vez em quando levanto-me, saio da frente da televisão; volto daí a minutos com a sensação de que o pior já passou. Mas não. O pior está para vir sempre, os minutos finais de um jogo. Na estranha «melopeia» sobre quem gosta e não gosta de futebol — e sobre o facto de os homens gostarem de futebol, e essa treta —, há momentos estranhos, supreendentes para todos: um gesto, um sinal. Lembro a forma como o FC Porto perdeu — e bem — aquele campeonato para o Sporting (o primeiro...): o gesto de Jorge Costa, de desalento, a meio do jogo com o Farense. Foi aí que perdemos o campeonato (os mais radicais dirão que foi naquele outro jogo de Campomaior...). E lembro aquele golo de Capucho, contra o Gil Vicente, golo genial, já o campeonato perdido (desta vez para o Boavista, creio) — o Joel Neto escreveu magistralmente sobre esse golo. São momentos de revelação: o que se lembra. Lembro-me daquele gesto (eu gostava de ter visto as mãos de Yashin) de Raí, um dos jogadores brasileiros que mais gostei de ver jogar, quando é substituído por Zagallo, a meio de um Brasil-Argentina no Maracanã — por Edmundo, o Animal (a vergonha do Vasco, acrescento): a sua elegância, o traço de um carácter, o olhar poisado sobre toda a superfície onde a bola poderia aterrar depois de marcado o seu voo. O olhar de Raí, naquele instante, foi o olhar de todas as derrotas, nunca pude esquecê-lo, ainda por cima substituído por um selvagem em campo. Mas há derrotas fantásticas, saborosas. A da Inglaterra frente à Argentina no Mundial de França, com o olhar surpreendido de Seaman — como era possível que aqueles tipos tivessem ganho o jogo? Aqueles tipos que nem inglês falavam.