SUDÃO, DARFUR. Há cerca de três anos, a Grande Reportagem, era eu director, publicou uma história de várias páginas (com direito a capa) sobre os crimes cometidos no Darfur, Sudão. Desde essa altura que acho ignóbil a posição da imprensa em relação a «crises humanitárias» (como o são desde há décadas as da Etiópia e da Eritreia): crianças raptadas e vendidas para a al-Qaeda, mulheres violadas, raptos em série, etc. Mais, muito mais: desaparecimento em massa de aldeias cujos habitantes foram assassinados por milícias árabes e muçulmanas, conhecimento da situação por parte das Nações Unidas e dos seus departamentos (para além das ONG que financia generosamente e cujos resultados são desconhecidos -- excepto o seu cada vez maior poder financeiro), denúncias permanentes da guerra religiosa movida à população cristã (como há anos aos falasha da Etiópia). Finalmente, alguma atenção ao caso, dado que já estão cansados de breaking news de cada vez que uma arma dispara no Iraque. Há vítimas e vítimas. No caso do Sudão, tal como no do Ruanda (e como, será no Zimbabwe, quando a «linha da frente» deixar de apoiar o nazi de Harare) só dez anos depois, ou mais, a ONU revelará a «real dimensão da tragédia», num dos seus relatórios contemporizadores, antes de aceitar que a Síria, Cuba, a Líbia ou talvez o Paquistão presidam à comissão de direitos humanos como moeda de troca. A «real dimensão da tragédia» está ali, em dois milhões de mortos contados no ano passado.
Aviz
«We have no more beginnings.» [ George Steiner ]

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