outubro 09, 2004

LIBERDADE. É evidente que está em causa a liberdade de expressão, ao contrário do que escreveram (nos jornais) e disseram (na rádio) hoje os especialistas em «politiquinha» e que justificam tudo com a hipótese de se tratar de mais uma traquinice do Marcelo. Pessoalmente, estou-me bem nas tintas para as traquinices do Marcelo – tão reconhecíveis (um piscar de olho, um sorriso, uma frase), tão evidentes. Seria bom que assentássemos no seguinte: a demissão de Marcelo Rebelo de Sousa (como sabemos hoje, a demissão foi a sua reacção à proposta de amenização das críticas ao governo e de mudança do formato do programa) não faz senão agravar o que já de si era grave – as declarações do ministro.
Estou-me bem nas tintas para saber se MRS quer ser candidato a presidente da República ou a provedor da Santa Casa. E não acho significativo que MRS escolha o silêncio para castigar ou penalizar o governo. Isso interessa os especialistas em «politiquinha» – e até pode interessar o próprio Marcelo. Agora, o que eu acho significativo é que todas as coisas que se passaram estavam já inscritas nas palavras do ministro.
MRS pode ter-se demitido porque não estava para aturar a sugestão para amenizar as críticas. Quem pode, pode – e demitiu-se. Pacheco Pereira não aceitou um cargo. Outros fizeram o que puderam. O que é grave é a ideia de que qualquer crítica, por menor que seja (ao decreto da «ponte» da passada segunda-feira, à ida de Paulo Portas ao carnaval de uma amiga, às gravatas de um director-geral, ou, por displicência, a aspectos essenciais da governação) sejam entendidas como «destilar ódio ao PSD». Isso é que eu acho inaceitável. Tal como acho inaceitável (não, não por razões «operativas» ou para dar conta de um «descontrole» do governo) que, a cada crítica e a cada despacho de uma agência de notícias, se responda com conferências de imprensa e comunicados oficiais. Isso é coisa de quem depende absolutamente das primeiras páginas e não se defende onde essas coisas devem ser defendidas: no Parlamento, no governo, nos ministérios.
Tratar toda a «opinião desfavorável» como uma ameaça iminente é uma coisa desprezível que retira toda a dignidade à ideia de governar; como se não fosse possível governar sem as primeiras páginas e sem o beneplácito dos comentadores encartados ou fortuitos. Esta dependência orgânica é que é desprezível – não me interessa que Marcelo se tivesse demitido e vestido a pele de vítima. Isso é assunto dele, dos que adoram «factos políticos» e dos que acham que a política é apenas o jogo do Monopólio. Assunto meu é o da liberdade, porque sou cidadão. E assunto meu é, também, a forma como as autoridades reagem às críticas. Podem não revelar outra coisa – mas revelam um carácter.