novembro 25, 2004


Juan Rulfo

DO USO DAS METÁFORAS, 2. O Seta Despedida está (na sua Comunidade de Leitores) a fazer a leitura de um livro fundador, Pedro Páramo, de Juan Rulfo: «Quanto mais nos envolvemos numa obra, mais angústia sentimos. Começamos a interpretar, e isso é uma atitude defensiva que pouco tem a ver com o prazer. Seguiu-se alguma polémica mais ou menos apaixonada, com outras pessoas a defenderem entusiasticamente a possibilidade do prazer intelectual. E, lá para o fim da reunião, houve mesmo alguém, inequívoco leitor voraz, que sentiu a necessidade urgente de confessar que em toda a vida só tinha conseguido retirar prazer da leitura de dois livros.» Acontece que Pedro Páramo não pode ser lido do ponto de vista dos modelos de interpretação ocidentais. Nem se pode discutir se aqueles mortos estão mortos ou se os mortos são metáforas, estando lá em vez de outra coisa qualquer. Acontece que aqueles mortos estão mortos. Quando se diz que os anjos cantam queremos dizer que eles, de facto, estão a cantar. É um ruído assustador, o de certos livros.