Fevereiro 23, 2005

A vida como ela é.

Luís Paixão Martins, o responsável pelo marketing do PS, foi ouvido pela TSF sobre a campanha eleitoral socialista. Foi uma das entrevistas mais importantes depois da vitória eleitoral de domingo passado porque dá razão aos pessimistas que diziam que o país estava cansado e queria regressar à normalidade. Ou seja, que as pessoas normais queriam uma vida normal. Uma vida normal é uma coisa simples – professores colocados a horas, ordem nas ruas, telenovela antes e depois do telejornal, futebol ao fim-de-semana, juros baixos, telemóveis baratos e férias no Algarve. Não são precisas nem muita sensibilidade política nem muita perspicácia de sociólogo para compreender esse desejo de mediocridade.
Há um lado da democracia que se deixa fascinar por esse desejo de mediocridade simpática – é necessário compreendê-lo. Com isso se ganham eleições e se seguram governos. António Guterres teve essa sensibilidade medíocre no início do seu segundo mandato, quando mencionou telemóveis e férias no Algarve. Eram metáforas aceitáveis. Medíocres mas aceitáveis. As pessoas aceitam endividar-se razoavelmente desde que o perigo não seja escandaloso; preferem a mediocridade ao combate pela excelência; os eleitores não gostam de ser incomodados. Compreende-se.
Luís Paixão Martins diz também que a alusão de Santana Lopes a uma suposta orientação sexual de Sócrates funcionou contra o candidato do PSD. Também se compreende – não apenas porque a alusão foi vergonhosa e indecente, mas porque “as pessoas normais” se estão nas tintas para o domínio privado dos outros desde que não pretendam impor-lhes padrões ou desde que esses modelos não prejudiquem o desempenho de funções públicas. Santana, que representa a figura do cafajeste infantil, foi perdoado nas suas extravagâncias privadas; eram um assunto pessoal. Mas quando se viu que esse comportamento também traduzia a sua incapacidade de se portar com decência como figura do Estado, então a reacção mudou.
O momento mais glorioso chega quando o estudo de marketing “descobre” que os portugueses são pouco sensíveis às “grandes reformas” que possam colocar em risco um valor como a estabilidade. As pessoas normais gostam de uma vida normal, de um emprego, de um carro em prestações baixas e de sardinhas pelo São João.
Um político, em campanha, que decida não prometer nada além da vidinha – tem a eleição garantida. Defendi essa ideia várias vezes nesta coluna. Fui criticado por isso. Chegou a altura de defender as minhas posições e de reabastecer o meu ego. Obrigado, Luís Paixão Martins. De certo modo, obrigado José Sócrates. Eu explico: as pessoas gostam de uma vida decente e de poucos incómodos. As reformas são um incómodo. Durante a campanha, foi proibido contar a verdade.
Muitas vezes, os nossos políticos e melhores intelectuais falam de um país que não existe senão a imaginação ou na longínqua Suécia. Já agora, têm sido os contribuintes suecos ou alemães, por exemplo, a pagar essa estabilidade lusitana. Aí está um problema com que o engenheiro Sócrates terá de lidar. Ou isso ou telemóveis e férias no Algarve.

[É a coluna desta quinta-feira no JN]

8 Comments:

At 7:13 AM, Anonymous Anónimo said...

Li o seu "post" e lembrei-me logo de dois ou três filmes americanos, de fim de semana para a família, mas em que a mensagem de fundo é: "preferir ser uma estrela cadente - breve mas espectacular, e que deixa marca, do que uma insignificante e anónima estrela (existência). Lembrei-me também do actor Orson Wells a dizer que 500 anos de paz e estabilidade suiça deram o... relógio de cuco.
É impressionante como um povo que "deu novos mundos ao mundo" esteja hoje seduzido e encurralado pela promessa de umas férias em Cancun, ou de ganhar um automóvel no "Preço Certo". Para onde foi essa alma colectiva? Será que emigrou toda e só cá ficamos os medrosos (ou merdosos)?
C. Pereira da Cruz

 
At 9:09 AM, Blogger Luís Bonifácio said...

"O momento mais glorioso chega quando o estudo de marketing “descobre” que os portugueses são pouco sensíveis às “grandes reformas” que possam colocar em risco um valor como a estabilidade."

O que é mais fantástico é que é necessário fazer um estudo (e pagá-lo) para este descobrir uma coisa que toda a gente já sabe.
Salazar ficou no poder tantos anos à custa de quê?

 
At 10:41 AM, Anonymous Anónimo said...

Tantos beneméritos dispostos a abrir mão de todos os seus confortos, a enfrentar o desemprego sem subsídios e a doença sem segurança social para que Portugal volte a... a... a dar novos mundos ao mundo. Isso.
Os cidadãos dos países de sucesso estão aliás a sacrificar dia a dia, de bom grado e com alegria, os seus privilégios sociais para aumentar a competitividade das suas nações.É o que se vê pelo mundo.
O modelo social dos meus amigos ultra-liberais parece-me ser... o modelo chinês.

 
At 4:50 PM, Blogger Carlos Azevedo said...

Não me parece que a política seja um compartimento estanque, e que os políticos sejam os culpados de todos os males. Os políticos são, talvez, a expressão pública máxima da mediocridade que grassa o país. Que música ouvem os portugueses? Que livros lêem? A que filmes assistem? Que programas vêem na TV? Qual é o seu comportamento cívico? Qual o grau de intervenção da sociedade civil?
Todos, ou quase todos, esperam milagres. È a ânsia do sucesso, da felicidade, do dinheiro, enfim, uma vida de aparências. Para isso, e por isso, se vive. A grande mudança, a mudança de mentalidades, não se opera de um dia para o outro. Para que haja avanços na ciência e na tecnologia, é necessário investir na educação e na cultura, e os resultados demoram a ver-se. Na sociedade mediática em que vivemos, não há tempo para medidas conjunturais e estruturais. É só maquilhagem.

 
At 7:59 AM, Blogger Attila said...

Este post e' fabuloso!

O que se passou na nossa história recente para nos termos tornado num povo de ambições tão raquíticas?

 
At 8:40 PM, Anonymous Anónimo said...

ok. o medo. somos muitos os sobrevivente. Tentaram ensinar-me num curso de gestão que o primeiro objectivo de uma empresa é a sobrevivência. E a missão, remunerar o capital.
Sobre(vivo). a vida é capital.Acho que não aprendi a lição. Preferi não sobreviver a viver o medo.
obrigada por me fazer sentir menos só.

 
At 6:41 PM, Anonymous Anónimo said...

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At 12:47 AM, Anonymous Anónimo said...

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